Tuesday, June 30, 2009

A importância da Orientação no Futuro dos Indivíduos

Ainda na senda da problemática da educação, em conversa com alguém, acabei reflectindo sobre uma questão: por muito tempo pensei que a geração dos meus pais e dos meus avôs não escolarizou-se muito mais do que simplesmente aprender a ler e a escrever, porque não teve oportunidade.

Na verdade, as oportunidades são criadas em função das perspectivas de vida, ambições e horizontes. Já me explico. O facto é que “no tempo dos meus pais e avôs”, eles na maioria das vezes não tinham um guia ou uma orientação que os mostrasse a importância de prosseguirem com os seus estudos.
A escolarização que eles recebiam era orientada para fins específicos, tais como aprender a ler e escrever. Isto me faz lembrar um dos objectivos do Estado Novo de Salazar, segundo o qual, a educação visava ensinar ao indígena a ler, escrever e a ter noções elementares de aritmética, por forma a melhor servir ao colonialismo.
A questão de estudar mais ou menos tem muito a ver com as expectativas que cada indivíduo tem da sua vida, e as vezes até com as que a sociedade tem dos indivíduos enquanto homens ou mulheres. Por exemplo, no Sul de Moçambique, durante muito tempo, até mesmo actualmente, é possível identificar regiões em que homem é aquele que vai as minas, por isso não tem necessidade de estudar mais. As mulheres durante muito tempo, e até ao presente momento em algumas zonas do nosso País, têm sido preteridas no que concerne à escolarização, porque se acredita que elas apenas sirvam para cuidar das lides domésticas.

Na minha opinião, a conjuntura sócio-política e económica influencia nas condições de acesso à escola, à liberdade de expressão e associação, porém, o principal factor prende-se com a orientação que é dada aos indivíduos. Que ferramentas a família, a escola e as outras Instituições de Socialização concedem ao indivíduo para que ele enfrente a vida e o futuro?

7 comments:

Nero Kalashnikov said...

Gostei da análise. Eu acredito que em Moçambique a educação hoje, mais do que um direito, é um dever de todos nós. Nenhum país no Mundo se desenvolveu com passoas iletradas. O conhecimento deve sempre "avançar para águas profundas". Isto é,um país que não se preocupa com educação é o mesmo que uma pescador que pesca na margem. Na margem nunca se apanha apanha lagostas, vermelhão, garoupa, peixe serra, etc. Para poder comer estes mariscos, este pescador tem duas hipóteses: 1. Avnçar para águas profundas; 2. Depender de outros pescdores que vão ao alto mar. Aí, ele será sempre vulnerável, dependente e terá que gastar algum dinheiro para poder comer mariscos que ele próprio poderia ir pescar. Agora te pregunto: Moçambique assemelha-se a que pescador?

Egídio Vaz said...

"1. Avnçar para águas profundas; 2. Depender de outros pescdores que vão ao alto mar. Aí, ele será sempre vulnerável, dependente e terá que gastar algum dinheiro para poder comer mariscos que ele próprio poderia ir pescar." Nero Kalashinikov.
caro Nero, gosto a forma sucinta como apreentam as ideias. Tu e a Nyikiwa. SImples, clara e directa.
Mas, deixe-me acrescentar as alternativas de um pescador que queira comer mariscos de primeira:
Para além de lançar-se ao alto-mar e depender dos outros, o pescador MOÇAMBICANOS também tem a terceira, muito comum entre nós infelizmente: ROUBAR.
NK, o nosso estado não cumpre nem de longe com as suas orbigações no que concerne com a necessidade de educar o seu povo. É simplesmente um crime o que está a aocntecer. Mas,...entendo. A situação actua; é lhe favorável. Imagina um estado com 80% de escolaridade básica? Teriamos um Moçambique diferente, com cidadãos activos, atentos e interventijvos; um povo que cobra responsabilidades e...pune em momentos eleitorais. Mas assim...?
Abraços a partir de Haia, Holanda.

AGRY said...

Esta abordagem, aparentemente simples e linear, tem muitos escolhos. Nos comentários anteriores, conseguiu-se, numa linguagem acessível, demonstrar a importância da educação.
Também eu preferia não me afastar do espírito de quem me antecedeu. Não sei se o conseguirei, mas serei breve.
Sobre a aprendizagem, há quem defenda que ninguém vive durante dez horas, sem aprender
O que podemos chamar divisão burguesa do trabalho, pressupõe que o “exército” de trabalhadores que detém o domínio da técnica está ao serviço do Poder (colonial, ou outro). A sua popularização ( da técnica) não convém, em determinadas circunstâncias históricas porque não lhes basta deterem a direcção da economia e da sociedade.
Termino recordando um autor de grande prestígio I. Mészáros:
“Poucos negariam hoje que a educação e os processos de reprodução mais amplos estão intimamente ligados. Consequentemente, uma reformulação significativa da educação é inconcebível sem a correspondente transformação do quadro social no qual as práticas educacionais da sociedade devem realizar as suas vitais e historicamente importantes funções de mudança”

Nyikiwa said...

Caros amigos,

Quer queiramos sim, queiramos não, a escolarização é um dos catalisadores hoje em dia do desenvolvimento e um dos pressupostos para uma sociedade mais interventiva e participativa. Aliás, li um texto na disciplina de Língua Portuguesa quando estava na oitava classe, que tem uma frase interessante: “ a educação (mas na vertente escolarização) é o sinónimo de uma consciência crítica”. Mas, a educação é também encarada por algumas pessoas como um mecanismo de ascensão social.
Realmente Nero, antes vale o pescador mergulhar sozinho em águas profundas do que alguém mergulhar e escolher por ele. Ao mergulhar por si mesmo tem maior oportunidade de escolher o que lhe satisfaz. Este teu ponto de vista remete-me para uma publicidade que tem estado a passar ultimamente nas nossas televisões, em que um casal está num restaurante e o esposo não decide o que comer até que a esposa impõe a sua vontade sobre ele.
Egídio, o teu raciocínio vai de encontro com o significado da frase que citei acima, porque a partir do momento que se priva as pessoas de aceder à escolarização como colocas, se está a aniquilar a capacidade crítica das mesmas, alienando suas mentes.
Já agora porque é que os filhos de alguns dirigentes estudam fora do País?
Agry, subscrevo inteiramente o seguinte trecho do teu comentário: “O que podemos chamar divisão burguesa do trabalho, pressupõe que o “exército” de trabalhadores que detém o domínio da técnica está ao serviço do Poder (colonial, ou outro). A sua popularização ( da técnica) não convém, em determinadas circunstâncias históricas porque não lhes basta deterem a direcção da economia e da sociedade.”

Júlio Mutisse said...

Nos anos 80 era comum recebermos cadernos na escola; havia nesses cadernos uma frase que me fascinava: "Façamos da Educação a Base para o Povo Tomar o Poder." Sempre a entendi como um compromisso, como o reconhecimento do próprio Estado da necessidade de educar as pessoas.

Como refiro muitas vezes, é impossível uma cidadania militante e consciente sem educação. A educação é fundamental para a construção do ideal de cidadania e para o despertar de consciências sobre a coisa pública e não só.

Seria a frase que cito "Façamos da Educação a Base para o Povo Tomar o Poder" o indicativo de que o Estado pretendia uma sociedade educada e interventiva que se assumisse como "dona" do poder que é exercido por poucos em seu nome? Ou seria,antes, o Estado a tentar, ele próprio, influenciar a mudança de mentalidades reinantes na época e incentivar uma maior participação dos cidadãos na educação?

É evidente que o Estado, só ele, mesmo com um slogan bonito como "Façamos da Educação a Base para o Povo Tomar o Poder," nada conseguiria; a família, o ambiente envolvente etc, tem o seu papel na orientação do indivíduo no sentido deste assumir a importância da escolarização.

Nestes termos, é necessário uma conjugação de mensagens que devem ser bem passadas para termos uma boa orientação para o futuro.

Júlio Mutisse said...

Eu sonho com um Moçambique de "pescadores de águas profundas" embora reconheça as fragilidades do "nosso mar."

A quantidade de estrangeiros que entram para trabalhar em Moçambique da a "exiguidade de pessoal formado" demonstra que somos ainda pescadores de superfície embora estejamos, cada vez mais, a ir ao "alto mar" como comprovam os números das graduações nas instituições de ensino superior (falta aferir a qualidade).

Gostaria de não "saber" da alternativa que o Egídio coloca. Mas, é um facto; quando a TV "independente" publicita que é possível ter um Hummer último grito, viver numa mansão à custa de uma banca de doces que mensagem estamos a passar?

Mas a família e o meio tem um papel preponderante na mensagem que deve passar a favor da escolarização e da busca incessante do saber.

Porque os filhos dos governantes estudam fora do país? Pelas mesmas razões porque tu Nyikiwa, não governante, mandarias seus filhos para fora: (i) busca de melhores oportunidades e qualidade de ensino que, está claro, com as condições actuais do país não é o melhor, (ii) abertura de horizontes, aprendizagem de outras culturas (não podemos restrungir a escolarização à sala de aulas) etc. Eu aposto mais pela primeira embora não descarte por completo a segunda.

Quando o Estado, a Família e a sociedade passarem correctamente a mensagem chegaremos aquele extremo em que "Faremos da Educação a Base para o Povo Tomar o Poder." Quando a mensagem das progressões nos primeiros anos cria o relaxamento nos pais é sinal de que as mensagens não estão a fluir como deve ser, e de que os pais demitem se da orientação do futuro dos seus filhos apesar de as condições de hoje serem diferentes das dos tempos em que meu pai foi as minas.

Nero Kalashnikov said...

Boa Júlio!!
Gostei desta tua concatenação de ideias! Muito profunda e incisiva! Um analfabeto, iletrado ou com educação de baixa qualidade, muito dificilmente estaria (i) a aprender isto que estou a aprender quando leio as vossas ideias aqui neste mundo à parte e (ii) não estaria, por conseguinte, em condições de discutir o que nós discutimos. Claro, haverá sempre excepções ao que digo (exemplo disso é o saudoso escriba moçambicano Vandole Ukalioyi, pseudónimo de Rafael Maguni), mas serão excepções muito raras.