Tuesday, October 14, 2008

Fuga de Cérebros e Filiação Partidária como estratégias de sobrevivência

Tenho acompanhado e participado de alguns debates sobre a fuga de cérebros no nosso país. Na sexta-feira passada conversei com algumas pessoas sobre a fuga de cérebros, anscensão social e filiação partidária.

Na referida conversa procuramos levantar os motivos que fazem com que os nossos quadros "fujam" do país, criem e recriem estratégias de sobrevivência fora ou dentro do território nacional. Um dos aspectos que me parece importante mencionar é o facto de fuga de quadros ou de cérebros se quisermos, não ocorrer somente através do fenómeno migração, independentemente de ser interna ou internacional, mas também de um sector de actividade para outros.

Parece-me que quando se fala de fuga de cérebros refere-se mais às migrações. Moçambique não é o único país em que tal fenómeno ocorre. Alguns órgãos de comunicação social nacionais e internacionais já divulgaram estudos sobre o fenómeno fuga de cérebros, e África é de longe o continente em que tal fenómeno ocorre com maior incidência.

Por forma a lutarem pela sobrevivência os indivíduos mobilizam diversas estratégias para maximizar o bem-estar, dentre as quais: a fuga de cérebros, a filiação partidária, entre outras que não irei abordar por agora.

1. Fuga de Cérebros:

Um dos aspectos que salta à vista é o facto de não haver incentivo aos quadros nacionais, senão vejamos: em conversa com alguns trabalhadores Moçambicanos, pude constatar que muitos deles estão descontentes e desmotivados porque seus colegas estrangeiros têm as despesas todas pagas, desde combustível, alúguer de imóveis, rancho, contas de electricidade, água, entre outras.

Ainda segundo esses trabalhadores os trabalhadores estrangeiros na maioria dos casos, porque também não se deve generalizar pouco ou nada fazem e recebem melhores ordenados.

O descontentamento não advém somente da presença de trabalhadores estrangeiros que recebem no nosso mercado de emprego porque também não vamos nos comportar e viver como ilhas, temos que manter intercâmbio e contacto com outros modus vivendis e operandis para chegarmos à diversidade, porque o mundo e a realidade são feitos pela diversidade. O descontentamento advém também dos baixissímos salários que são pagos e ausência de grande mobilidade e opções no mercado de emprego.

2. Filiação Partidária:

A filiação partidária tem ganho protagonismo em alguns debates, sobretudo entre académicos e mídia. Na minha opinião, a filiação partidária não deve ser encarada como parte de um conjunto de estratégias de sobrevivência face às dificuldades do quotidiano, mas como um mecanismo de participação política. Claro que há casos de pessoas filiadas a partidos políticos mas que são comprometidos com uma causa e com a missão e visão do partido.

Outro dia entrei num portal de comunicação social e encontrei um artigo em que alguns jovens universitários queixavam-se de intimidação para se filiarem a um certo partido. Não sou contra os partidos e contra as pessoas que a eles se filiam, apenas acho que devemos abraçar uma causa com paixão e nos identificarmos com ela para que a nossa participação seja mais profícua.

Algumas pessoas podem achar que tenho uma visão romântica da vida porque estamos numa economia de mercado, onde muitas das vezes os nossos valores e ideais são sufocados e soterrados em nome de um pretenso bem-estar, e onde os fins justificam os meios.

O que quero colocar neste capítulo da filiação partidária é que ela não deve ser vista como escape para as dificuldades do quotidiano, mas sim como uma causa que abraçamos de forma descomprometida.

Apesar de por vezes achar a minha opinião sobre a vida um tanto a quanto romântica, me pergunto se vale a pena hipotecar nossos valores, ideais e perspectivas de vida em nome de um pretenso e ilusório bem-estar? O que é o bem-estar? Parece-me que o bem-estar é uma noção puramente subjectiva.

Caros visitantes do blog, peço que me ajudem reflectir em torno das questões que procurei levantar nesta exposição.

Obrigada,

Nyikiwa

2 comments:

Egídio Vaz-Historiador said...

ALot texto esse. Porém, não concordo consigo quando pretendes obliterar um facto: grande parte dos que agora se filiam em patridos políticos fazem-no na verdade por mera questão de sobrevivência. E já agora, esqueceste o terceiro elo do mesmo cerco: a filiação ou criação de associações de cariz não lucrativo. E aqui acho eu, podemos encontrar a mãe de todos os problemas: preguiça de muitos, espertos alguns, vão todos desembocar na mesma amargura.
Abraços ao trabalho.
E.

Reflectindo said...

Concordo contigo que haja os que se filiam em partidos políticos por mera questão de sobrevivência, mas uma boa parte filia-se para através deles participar e contribuir na vida política e governativa do país. Aqui incluo a possibilidade de esses mesmos cidadãos porem em prática os seus ideiais o que é possível se eles tomam postos de decisão. Não basta ter ideias, mas é também necessário ter a possibilidade de pó-las em prática.

Quando um jovem universitário se queixa de intimidacão em filiar-se a um partido, entendo logo que ele quer se filiar num partido de oposição e isso deve ser por uma causa, uma missão e visão do partido. Duvido, é por quem se filia ao partido no poder, sobretudo quando este nunca assume publicamente a causa, a missão e a visão do partidária. Geralmente, há muitos que se filiam (formalmente) para pura e simplesmente terem a possibilidade de fazerem a carreira profissional. Conheço muitos destes últimos que se recusam a debater questões políticas e até dizem: não gosto de política. Entretanto, meses depois são nomeados a administradores distritais, directores, etc; etc, num país em que quem assume esses cargos são os membros do partidão. Também conheço cidadãos honestos que dizem terem o cartão do partidão meramente para continuarem com o posto de chefia disto ou director daquilo e assim podem acrescer o magro vencimento.

A coisa não termina no partidão, pois atinge à oposição que se tornou quase uma empresa privada. Uns que lutam para ser deputados nem que não usem meios adequados, mas sem nunca nos esquecer que os ideiais e a causa são sufocados na medida em que são ameaçados a serem relegados se continuarem a transmitirem-los (ideiais ou convicções, causa e visão).

Em tudo isto, há uma relação com a migração dos quadros ou o não retorno de quem já tem a chance de estar fora do país. Isso que chamas de fuga de cérebros. E isso alegra aos que não querem os que se arrumam em carapau de corrida que têm outras experiências. Estes dirigentes preferem o estrangeiro que de princípio não os conhece e quando é o tempo de os conhecer, é quando saím do país. Há anos li uma história dessas que se deu numa das instituições do ensino superior em Maputo e a por tudo que uma estrangeira assistiu, ao sair, ela questionou a sua própria necessidade em Moçambique. Um outro exemplo, um médico moçambicano, me contou do que se passou a um bom engenheiro de geologia e minas, engenheiro de cobiçar, formado na Rússia, que até lhe tinham oferecido um bom trabalho em Namíbia, mas que por amor à pátria, pensou que em Moçambique teria sido muito útil. Mas só para ver, ele acabou sendo professor contractado duma escola por aí como a única saída de sobrevivência. Isto para não falar de todas as humilhações que ele sofreu, por aqui não caberem.